Quando a dor pede palavras: Escrita terapêutica para dias cinzas
- Paloma Ram

- 9 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Era uma manhã qualquer, mas dentro de mim, o céu pesava. Como se todas as nuvens tivessem se reunido sobre meu peito. Liguei o computador para trabalhar, respondi mensagens, sorri com esforço. E então, antes de seguir o dia, abri uma página em branco e escrevi:
“Hoje acordei com o coração em silêncio. Não é tristeza, talvez seja só o eco de tudo que ainda não disse. Sinto falta de mim.”
Foi só um parágrafo. Mas ao final dele, eu respirava diferente. A escrita, mesmo breve, havia me devolvido um pouco do ar. Talvez você já tenha vivido algo assim. Aqueles dias em que tudo parece demais. Ou de menos. E que, mesmo cercada de gente, você se sente um pouco sozinha.
A escrita terapêutica não promete curas instantâneas. Mas ela oferece algo precioso: um espelho sem julgamentos. Um espaço de cuidado. Um abrigo.
E a ciência confirma: escrever sobre nossas emoções pode mudar a forma como o cérebro lida com elas.
A ciência por trás da escrita que cura
Estudos conduzidos pelo psicólogo James Pennebaker, pioneiro em expressive writing, mostraram que escrever sobre experiências difíceis por apenas 15 a 20 minutos ao dia, durante alguns dias consecutivos, pode:
· Reduzir sintomas de ansiedade e depressão
· Melhorar a imunidade e o sono
· Aumentar a clareza emocional e a sensação de bem-estar
· Reorganizar memórias traumáticas e trazer significado a elas
Mas é importante entender: essa escrita não precisa ser bonita, gramatical ou lida por ninguém. Ela precisa ser sincera. E sua única audiência é você mesma.
Como começar: práticas simples de escrita terapêutica
Abaixo, compartilho algumas formas de começar. Escolha a que mais ressoar com você, ou experimente todas, com gentileza:
1. Diário do tempo interno
Em vez de relatar o que aconteceu no dia, registre como você se sentiu em relação ao que aconteceu. Pode começar com frases como:
· Hoje, o que mais me pesou foi…
· Me senti invisível quando…
· Eu queria ter dito, mas calei…
Escreva sem filtro, como se fosse despejar pensamentos em uma garrafa jogada ao mar.
2. Cartas que você nunca vai enviar
Escreva uma carta para alguém (vivo ou não), dizendo tudo o que ficou guardado. Pode ser para um pai, uma amiga, um ex, um chefe, ou até para si mesma no passado. Depois, guarde, rasgue ou queime, o poder está no dizer.
3. Lista das coisas não ditas
Liste frases que você não conseguiu dizer, mas gostaria. Exemplo:
Eu queria que você tivesse me perguntado se eu estava bem.
Eu precisava de ajuda, mas não soube pedir.
Eu ainda carrego isso comigo…
Essa lista pode virar poesia, oração, ou simplesmente libertação.
4. Reescrevendo o final
Escolha uma memória difícil. Escreva sobre ela com detalhes. Depois, escreva uma segunda versão do final, mais leve, mais compreensiva ou simplesmente mais sua. Esse exercício ajuda o cérebro a reorganizar significados e emoções associadas ao trauma.
5. Palavras para dias cinzas
Crie uma lista de palavras que tragam conforto, beleza ou força para você. Pode ser uma palavra por dia. Use-as como sementes para pequenos textos. Exemplo:
Palavra do dia: “abrigo”.
“Hoje, abrigo foi o silêncio onde chorei sem medo…”
Dica final: crie um ritual
Reserve um caderno só para isso. Acenda uma vela, coloque uma música suave, sente-se com uma xícara de chá. Transforme o ato de escrever em um momento de encontro com você. Não como obrigação, mas como acolhimento.
Porque escrever é cuidar
Nos dias cinzas, você não precisa ter todas as respostas. Mas pode encontrar abrigo nas palavras. A escrita não apaga a dor, ela a traduz. E, às vezes, tudo que a dor pede é ser compreendida.
Se esse texto te alcançou de algum modo, compartilhe com alguém que também esteja precisando colocar sentimentos no papel. Ou me escreva, aqui, toda história é bem-vinda.
Com empatia,
Paloma Ram



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